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O Blog do Arquivista
 


O Milton

Ia eu hoje, do trabalho para o trabalho, quando tocou o celular. Não reconheci o número, mas ainda assim atendi. Não reconheci a voz, também, mas fui reconhecido: “É o João Henrique?”. “Sou. Quem fala?”. Era uma conhecida, com quem havia tempos eu não falava. Pediu-me desculpas, mas meu nome estava exatamente em cima do nome da pessoa com quem ela queria falar e, por engano, ela me ligou. Conversamos trivialidades e ela, subitamente, solta a pergunta: “E o Milton, hein?”. “O que aconteceu com o Miltinho, perguntei?”. Silêncio do outro lado... Melhor parar o carro. “João, ele desencarnou”.

            E assim fiquei sabendo que meu querido amigo Milton Lando, arquiteto, designer e tradutor, havia morrido em maio, pouca coisa mais de um mês após havermos almoçado juntos e falado de planos para o futuro.E com as lágrimas vieram momentos compartilhados.

Conheci-o enquanto ele fazia a tradução de um livro, para o qual pediu minha ajuda, como se ele não conhecesse infinitamente mais da língua hebraica e da cultura judaica do que eu. Tradução esmerada, de ourives, de joalheiro lapidando uma gema preciosa. Tornamo-nos, a partir de então, “radanitas”, judeus iraquianos da Idade Média. Ficamos obcecados pelo assunto, acho que tentamos encontrar as ruínas da cidade de Radhan, aquela que talvez nunca tenha existido. Por causa dele e dos nossos radanitas, fui acabar tendo contato com Bernard Lewis, a maior autoridade em mundo árabe.

Miltinho, que após haver chamado um amigo nosso de “o babaca do Fulano”, fez com que essa pessoa tivesse o “babaca” anteposto ao nome, como um prenome, quase um vocativo. Miltinho, vítima dos meus inúmeros “bolos” e furos às nossas muitas reuniões e festinhas marcadas às quais eu quase nunca ia. Miltinho, sempre com um bom-humor e uma alegria enorme em se ver cercado de amigos. Alegria que parecia não caber em quem havia lutado na Guerra dos Seis Dias e vencido um câncer. Alegria que vencia seus momentos depressivos.

Enfim, fica aqui, com minhas lágrimas e meu carinho, a alegria, companheiro, de ter compartilhado este planeta e este tempo com você. E também a minha saudade. Uma saudade intraduzível em palavras, mas com a certeza de que você, pra usar a linguagem naval, está agora tendo somente bons ventos e mares tranqüilos. A você, Milton Lando (lembra de como rimos quando descobrimos que houve um Papa chamado Lando I?), arquiteto, designer, tradutor, fazedor do melhor homus bitahine que eu já comi, e, sobretudo, grande ser humano, o tributo da minha saudade.



Escrito por L'Archiviste às 15h42 [] [envie esta mensagem]





Gregório de Mattos - poeta ou profeta?

Definitivamente, Gregório de Mattos, mais do que poeta, parece ser profeta: ei-lo falando da Bahia do século XVII. Ou falaria da Brasília do século XXI?

DEFINE O POETA OS MAUS MODOS DE OBRAR NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA UNIVERSAL FOME QUE PADECIA A CIDADE.

Que falta nesta cidade? ... Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha? ... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são meus doces objetos? ... Pretos.
Tem outros bens mais maciços? ... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? ... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? ... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? ... Guardas.
Quem as tem nos aposentos? ... Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimada,
porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda? ... Bastarda.
É grátis distribuída? ... Vendida.
Que tem, que a todos assusta? ... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia? ... Simonia.
E pelos membros da Igreja? ... Inveja.
Cuidei, que mais se lhe punha? ... Unha.

Sazonada caramunha!
Enfim, que na Santa Sé
O que se pratica, é
Simonia, inveja, unha.

E nos frades há manqueiras? ... Freiras.
Em que ocupam os serões? ... Sermões.
Não se ocupam em disputas? ... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões, e putas.

O açúcar já se acabou? ... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.

A Câmara não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence!

(Gregório de Mattos e Guerra)



Escrito por L'Archiviste às 12h24 [] [envie esta mensagem]





Do século XVII ao XXI num poema

Para os que acham que o Século XVII não é senão um distante século perdido no tempo, um poema de Gregório de Matos e Guerra sobre a então cidade de Salvador. Ou falaria ele de Brasília, das malas, cuecas, mensalões e cafetinas do século XXI?

DEFINE A SUA CIDADE

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

(Gregório de Mattos e Guerra)



Escrito por L'Archiviste às 12h21 [] [envie esta mensagem]





REFLEXÕES DE UMA CAMINHADA SABÁTICA

Sábado, dor de cabeça mortal, tédio, aflição, angústia. Decisão: pegar o ônibus e sair, dar uma volta. Primeira parada: Museu Histórico Nacional. Comprar uma caneca e um livro. Não necessariamente nessa ordem. Acidente. Van capotou. Parece que há feridos. Bem fiz eu que saí de ônibus. Acidente sério. Mulher ferida na pista.

            Próximo destino: Ipanema. Sim! Mas se era Ipanema, por que peguei o ônibus que vai pro Leblon? Mais especificamente pro final do Leblon! Sei lá. Maluquice, loucura, vontade de andar.

            Mc Dia Feliz. Dia de comprar Big Mac. Comprei. E ando, e olho e vejo as pessoas. Será que me vêem? Será que me olham? Sei lá!

            Blusa da menina bonita: “Who do you love?”. Boa pergunta, mas de resposta simples e fácil: normalmente, as pessoas erradas. Sigo meu caminho até a livraria. Livros. Livros! LIVROS! Cheiro de papel impresso! Cheiro de saber, de curiosidade, de novos mundos e possibilidades a explorar. Ops! Não achei o livro que eu procuro! Mas como assim, se eu liguei pra cá e vocês disseram que tinha? Um, dois, vários vendedores e eu procurando o livro. O trato: quem achar primeiro grita e sai correndo. O vendedor achou mas não cumpriu sua palavra...

            E continuo a caminhada, mas a blusa da menina (ou a menina da blusa?) não me sai da cabeça: “Who do I love?”.

            O pastor do pastor. Hehe... Quer dizer, na verdade, o labrador do pastor Mozart, com o próprio, um pastor “cachorreiro”, numa farmácia. Perco o amigo, mas não a piada: “Como diriam os crentes, o senhor é o meu pastor!”. Risos, abraços, afeto. Talvez ele saiba quem ele ama. Talvez ele ame. Seguramente ele ama. Somente ao sabê-lo proprietário de um cachorro encantador como aquele é que entendo a sua frase dita com alguma freqüência: “Quem não gosta de cachorro nem de poesia não pode entrar no céu”. Bem, se for usado esse critério, acho que tem vaga pra mim.

            Ônibus, volta pra casa, celular toca, pode ser combinado algo bom. De volta à casa descubro que o programa é ficar em casa. Talvez em memória de minha avó, que sempre dizia que “boa romaria faz quem em casa fica”.

            Banalidades. Um punhado delas. Talvez de banalidades seja feita a vida. Como a pergunta da blusa da menina. Durmo feliz, pensando nisso.



Escrito por L'Archiviste às 19h09 [] [envie esta mensagem]





Eu sou um sebastianista!

Em homenagem à Jacqueline, sebastianista “stricto sensu”.

 

            Não sei quanto a vocês, mas sou um sebastianista. Não, não exatamente como muitos portugueses que acham que o jovem rei, desaparecido no Marrocos em 1576, a qualquer momento voltará (meu tio, nascido em Portugal em 1911, seis meses após proclamada a República, me falava muito das mulheres totalmente vestidas de preto, nas praias, esperando pela volta de D. Sebastião que poria fim à República).

            Sou um sebastianista que acha que chegará aquele e-mail que nunca se sabe se ou quando chegará ou aquele telefonema no celular (tá, serve “torpedo” também) que também não se sabe se ou quando chegará. Vivo à espera do que pode vir, mas que para mim é um há de vir.

            Utopista? Quixotesco? Cavaleiro da Esperança (com as devidas licenças e a bênção de Jorge Amado)? Não. Apenas sebastianista. Não me importa que digam que El-Rei não voltará, não faço conta que se passaram 429 anos desde que ele desapareceu. Não me importa dizerem que o telefone não tocará, que o mail não chegará, que o “torpedo” não virá. Eu SEI que essas coisas acontecerão, por mais que tardem, por mais que eu espere/desespere. Tão certo estou disso quanto estava o taxista em Lisboa ao dizer a uma amiga muito querida, há dez anos, “que tudo aquilo só tomará jeito [falava do caótico trânsito lisboeta] quando D. Sebastião voltar; e ele há de voltar!”.

            “A esperança é um dever do homem”, dizia Dom Hélder Câmara, e diria eu, mais ainda, é o moinho que move nossa vida. Sem esperança, a água da vida estagna, pára, apodrece.

            Por isso, sei que o que espero, chegará. E ainda que não chegasse, esperaria mesmo assim.



Escrito por L'Archiviste às 15h42 [] [envie esta mensagem]





Deus me perdoe - Parte II

Inglaterra: S. Jorge e S. Miguel Arcanjo

Eu, se fosse a Camila (Deus me livre!!) ficaria preocupado com isso de S. Jorge ser o padroeiro de lá. Vai que, numa dessas, ele acha que o dragão ressuscitou?!

 

Mônaco:  Sta. Devota

Sta. devota da roleta, do poker, do bacará, do bingo.

 

Moscou: S. Boris

Isso é uma vergonha!

 

Oceania: S. Pedro Chanel

O que explica o corte de cabelo ridículo dos nativos.

 

Uruguai: Nsa Sra de Trinta e Três, S. Filipe e S. Tiago

Ela seria a protetora dos asmáticos?

 

Venezuela: N. Sra. da Coroação                                     

E o Chávez, por via de conseqüência, se acha imperador...

 

PS: Antes que me acusem de herege incorrigível, comunico que, apesar de judeu, sou devoto de Santa Bárbara, Nossa Senhora Desatadora dos Nós e Santo Antônio...



Escrito por L'Archiviste às 16h56 [] [envie esta mensagem]





Deus me perdoe - Parte I

Alguns comentários se fazem necessários por parte da minha pecadora pessoa sobre os santos padroeiros de alguns países e lugares... Que Bento XVI me perdoe... 

 

 

Albânia: N. Sra. do Bom Conselho

Bom conselho?! Saiam dessa porra de lugar feladaputa!

 

Bavária:  Sta. Edwiges

Putz! O Papa já começou como endividado... Ora pro nobis...

 

Bolívia:  N. Sra. de Copacabana

Ali, esquina com Prado Júnior...

 

Brasil:  N. Sra. Aparecida e S. Pedro de Alcântara

S. Pedro de Alcântara só se foi no Império pra babar os ovos imperiais...

 

Colômbia: S. Pedro Claver e S. Luís Bertrán

Para que não haja disputa entre os cartéis...

 

Chipre: S. Barnabé

Tem tanto funcionário público lá assim?

 

Cuba: N. Sra. da Caridade

Com Fidel desde 1959? Nem pela Misericórdia! Muito menos, por caridade...

 

Dinamarca:  S. Oscar

São bons em efeitos especiais...

 

Haiti:  N. Sra. do Perpétuo Socorro

Acho que ela tá precisando mostrar mais serviço...

 

Holanda:  S. Willibrord

Nas versões "integral", "light" e "de centeio".

 

Honduras: N. Sra. de Suyapa

Eu posso até ir pro inferno (o que é, cada dia, mais uma certeza do que uma possibilidade), mas "N. Sra. de Suyapa" me cheira a bandalheira...



Escrito por L'Archiviste às 16h54 [] [envie esta mensagem]





Algumas coisas que dizem que eu tenho

Depois de analisar as centenas de spams que eu recebo diariamente, cheguei à conclusão de que eu tenho algumas coisas das quais jamais me dei conta: pinto pequeno (3.867 e-mails prometendo tudo “to enlarge this your ridiculous thing you call penis”), impotência (a.k.a. broxura)  (2.594 e-mails anunciando Viagra, Ciallis, Levitra e os seus genéricos), tara por ninfetas (2.387 e-mails prometendo ninfetas para todo tipo de sonho sexual) ou por velhinhas taradas (2.386 e-mails anunciando velhinhas taradas, tipo “a sua avó” – CARACA!!!!), adição por todo tipo de tranqüilizantes e hipnóticos (10.657 e-mails vendendo tudo “without prescription needed”) muito dinheiro para comprar fazendas e investir em gado (1.984 e-mails), conta nos mais diversos bancos no mundo, sempre com “um detalhe cadastral pendente” (37.984 e-mails), dívidas com o SERASA, Receita Federal e todos os credores físicos e jurídicos (alguns até mediúnicos) que se pode imaginar (682 e-mails) vagabundagem (uns 8.524 e-mails sugerindo que eu trabalhe em casa ou comece FINALMENTE a trabalhar) e, por fim, mau-hálito (16 e-mails nas últimas semanas). Gente! Quero dizer que, apesar disso, eu sou um sujeito bacana e limpinho. Dá pra alguém espalhar isso na Internet? Gracias. J



Escrito por L'Archiviste às 23h16 [] [envie esta mensagem]





A Academia e a tapioca

            Sábado desses, pra ser mais preciso, dia 12 de fevereiro, tentando aliviar minha alma aflita das agruras impostas pelo dever acadêmico de produzir uma brilhante dissertação, assisti o Jornal Hoje. Aí, lá pelas tantas, disseram que iam ensinar receita de tapioca. Assisti e vi uma simpática mulata alagoana gorduchinha (desconfiem de cozinheiro(a)s magro(a)s) preparando a tapioca de uma forma que até uma criança de 6 anos, castigada pela fome, pela peste e pelo tsunami conseguiria fazer.

 

            Aí, enchi-me de orgulho e auto-estima, lembrei-me que havia ganho um quilo de genuína tapioca nordestina e falei: “vou fazer esse troço”. Enquanto começava o ritual (sim, porque tudo na vida são rituais) de preparação, pensei: “Caraca! que coisa fácil! Vou fazer a tapioca e depois, enquanto como, volto às leituras fundamentais para a salvação do mundo e a mudança dos rumos da historiografia planetária.

 

            Fiz. Melhor dizendo: tentei fazer. Ficou uma bosta absoluta!!!! Por muito menos já houve rebeliões no Carandiru ou no Cadeião de Pinheiros. Aí, segui a velha norma americana: “Quando tudo o mais falha, leia o manual” (ou, simplesmente, “RTFM” em linguagem militar – Read The Fucking Manual). Fui ao site e li a receita. Para minha surpresa, a tapioca tinha que ficar de molho por 24 horas (não, você não leu “2/4 horas”, não! 24 horas, mesmo! um dia inteiro!). Pô! Mas na reportagem a sorridente gorduchinha não falou nada disso. OK, perdido, perdido e meio. Deixei a tapioca de molho, seguindo o regulamento (i.e., a receita) à risca – se é pra seguir o manual, vamos lá, literalmente e no dia seguinte, passadas 24 horas (notem bem: nem 23:59, nem 24:01), fiz o que foi mandado: retirei o excesso de água, torci, espremi, peneirei, coloquei na frigideira e... bosta II, a missão! Incomível!!!!!!

 

            Voltei ao meu século XVII e começo a achar que todo o saber histórico e científico não tem nenhum valor se não se consegue, com ele, fazer uma simples tapioca.

Escrito por L'Archiviste às 20h44 [] [envie esta mensagem]





Uma odisséia postal

Nesta semana, fui a uma agência dos Correios postar uma caixa para a Inglaterra. Tudo ia bem, eu já havia endereçado a caixa no estilo britânico de informar o código postal, e aí... aí a mocréia foi fazer o registro. Foi o seguinte o diálogo com a simpática atendente:

 

- O Sr. precisa colocar o CEP.

- Já está aí, senhorita.

- Onde????

- Esses dois conjuntos de letras e números são o código postal inglês.

- Ah! O Sr. vai me dizer que ISSO é o CEP?!

- Juro que sim, por Sua Majestade a Rainha e pela alma da Princesa Diana... Há décadas é assim, talvez séculos. Se você quer saber, o primeiro conjunto indica a região e o segundo, a sub-área...

- Tá! Mas o que eu faço? Aqui na máquina só aceita CEP de 5 números! E não pode ter letra!

- Moça, então eu acho que fudeu tudo! Já que eu não tenho poder de mudar o sistema de código postal inglês, vai complicar. E você está me dizendo que eu não poderia mandar nada pra Alemanha, Inglaterra, Holanda, países que usam letras nos CEPs...

- Peraí!!! Mas esse vai pra onde?

- Exatamente para onde está escrito aí na caixa: In-gla-ter-ra. A menos que o Correio faça a grande sacanagem de ir entregá-lo no Afeganistão. Aliás, eu nem sei se no Afeganistão eles usam CEP.

(Minutos de perplexidade e silêncio. Por dentro, eu me esborrachando de rir. Aí a menina vai lá dentro e deve ter consultado sei lá quem, talvez o presidente dos Correios, e volta feliz)

- Tá certo! Pode ir, sim.

- Ufa! Que alívio! Pensei que os Correios quisessem que eu fosse entregar pessoalmente.

(Minutos de angústia...)

- Não estou entendendo. O Sr. diz Inglaterra, mas aqui (na telinha) tá escrito Grã-Bretanha.

- Serve. Tá bom. Eles são amigos e vizinhos. Posta assim mesmo! (nessa altura, eu me dividia entre querer ter um acesso incontrolável de riso e voar por cima do balcão e passar a cabecinha oca da menina na máquina de franquear).

 

    E quem disse que meus dias não começam animados?



Escrito por L'Archiviste às 20h43 [] [envie esta mensagem]





Os blogs dos amigos

Blog, hoje em dia, é quase como celular: praticamente todo mundo tem o seu. Em alguns casos, mais de um: blog ou celular. Assim, estou só indicando aqui alguns poucos blogs de amigos que eu recomendo que visitem. Aos amigos não citados, sem problemas: na hora do comentário me esculachando, aproveitem e façam o merchandising: a idéia é exatamente essa. Vamos a três deles:

 

http://minhocagem.blogspot.com - blog da Grazi, amiga querida e fotógrafa das melhores. É deliciosa a intimidade que ela cria com o leitor/navegante. A idéia das “minhoquinhas adestradas” é tudo!

 

http://perfumecultural.zip.net - o blog da Rose. Eu já tinha dito (acho que fui um dos primeiros visitantes dele) que é um blog BPS (bonito, poético e sensível), como, aliás, é a dona dele.

 

http://www.karushenka.blogger.com.br/  - blog da Karen, amiga muito querida a quem (coisas do cibermundo!) ainda não conheço pessoalmente, embora, algumas vezes pareça que a gente foi criado junto. O que chama a atenção é o texto perfeito, enxuto, com uma “pontuação de Rui Barbosa”. Mesmo encarando um texto perfeito, a gente não se intimida e, ao contrário, dá vontade de interagir na hora com a autora. De certo modo, a Karen é um pouco a madrinha deste blog que, no dia em que crescer, pretende ficar igual ao dela. Ah, sim! Quando postarem comentários lá, não se esqueçam de usar ponto-e-vírgula: ela gosta!

 

            Aos muitos amigos blogueiros, cujos blogs eu omiti aqui (juro! é muito mais esclerose do que qualquer outra coisa), apareçam, manifestem-se e façam o seu “marquetchíngui”.



Escrito por L'Archiviste às 01h43 [] [envie esta mensagem]





O ano dos meus três Pablos

            1973 foi um ano de perdas para mim. Não pessoais ou afetivas. Na verdade, quando os perdi, nem sabia que eles seriam perdas, nem sabia que os tinha perdido. Perdi-os sem sentir ou saber. Foi um ano em que três Pablos se foram: Pablo Picasso, Pablo Neruda e Pablo Casals. Eu nada conhecia da pintura de um, da poesia do outro ou da música deste. Anos depois, liguei as peças: La Guernica, Cien sonetos de amor e os solos de cello embalaram anos da minha vida (um dia, quando eu ficar bem rico e famoso, vou comprar um violoncelo!). Os três partiram no mesmo ano. Lembro-me de que, quando fui à Isla Negra, chorei ao lembrar que lá viveu Neruda, que lá compôs muitos de seus geniais poemas. Também La Guernica impressiona-me até hoje, como me impressionou na primeira vez em que eu a vi, retrato eloqüente do horror. E, nas horas de alegria ou de tristeza, o solo do cello.

            Dois, sequer eram Pablos: Neftalí Ricardo Reyes Basoalto homenageou o poeta tcheco Jan Neruda e tomou-lhe emprestado o sobrenome. Pau Carlos Salvador Defilló fez uma apócope de seus sobrenomes e virou Casals, traduzindo-se para “Pablo”. Em compensação, o outro era imensa e enormemente Pablo: Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Crispín Crispiniano de la Santísima Trinidad Ruiz Blasco Picasso y López. Olé!

            Talvez tenha sido eu estar cada vez mais próximo de Neruda que me fez lembrar-me de meus três Pablos.

            Hoje, olhando um livro de poemas de Neruda e uma compilação que fiz de seus poemas, à qual nomeei “Nerudário”, fico contemplando “La Guernica” na parede do corredor em frente a mim. No micro, a voz do “capitán”, dizendo “Sólo quiero cinco cosas, cinco raíces preferidas...”. E ao fundo, claro, um solo de cello. Pablos, gracias!



Escrito por L'Archiviste às 20h14 [] [envie esta mensagem]





Dando voz (e vez) às mulheres

Tenho mais amigas do que amigos, creio. Amizades que eu soube construir ao longo de muitos anos, com respeito, diálogo, carinho e, sobretudo, compreensão. Hoje, resolvi dar voz a uma das minhas amigas, a Cheila, companheira de longos papos, amiga de anos. Ao final do texto dela, segue o seu e-mail para quem quiser trocar idéias com ela. Mas gente! podem trocar idéias aqui também, tá? Com vocês, Cheila!

 

Mulheres de 40: Entre a Idade e a Pós-modernidade

A maioria das mulheres da minha idade, isto é, que estão por volta dos 40, foi criada para casar, ter filhos e viver (felizes ou não) para sempre; na condição de boa mãe, esposa e se possível professora (profissão honrada para moças de família).

Com o avanço das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs), no mundo atual, o papel da mulher vem se transformando em uma velocidade que, muitas vezes, não acompanha as mulheres criadas com valores carregados de culpa. A maioria das jovens da minha geração não podia, sequer, sentar de perna meio aberta porque alguém dizia: “tenha modos de mocinha”!

Pois bem, a mulher atual é liberada e tem desejo sexual (“coisa para prostituta”), mas nem por isso perdeu o romantismo ou o comprometimento com seus respectivos parceiros. Nesse contexto, deixo minha dúvida: como lidar com uma educação cristalizada com valores de vergonha e culpa e ao mesmo tempo com sentimentos de que somos dignas dos mesmos prazeres que os homens, que podemos ser ousadas sem medo de sermos felizes, mesmo que só por uma noite?

Quando a maioria das mulheres de 40 dorme com um homem por uma noite, elas geralmente se sentem usadas (mesmo que tenha sido a melhor relação sexual de suas vidas); contrariamente, quando esse fato ocorre com um homem, ele não liga, pois foi criado para “pegar todas”, ser o Tigrão!

Enfim, espero que a geração das minhas filhas não seja tão reprimida e que aproveite a vida sem medo de ir para o inferno. Até porque, se existe inferno, é para gente má e não para mulheres felizes!!!!

Cheila (cheilamazal@yahoo.com.br)

Escrito por L'Archiviste às 22h54 [] [envie esta mensagem]





Sobre o Amor e o Desejo

            Hoje recebi um belo poema de Hermann Hesse, sobre o amor e o desejo, que transcrevo aqui, cujo título é “O Amor quer Somente Amar”: “Feliz é quem pode amar muito / Mas amar e desejar não é a mesma coisa / O amor é o desejo que atingiu a sabedoria / O amor não quer possuir / O amor quer somente amar”. Recebi-o de alguém que não conheço, mas que creio existir tal como a imagino, profundamente sensível. Coisas do mundo virtual que podemos transportar para o real. Parafraseando Carlitos em “O grande ditador”, “não sois bytes! homens é que sois!”.

            O que o poema me levou a pensar foi em que amor e desejo muitas vezes se confundem, sim. Diria eu até que o amor é o máximo de carinho associado ao máximo de desejo. Certo que muitas vezes desejamos apenas, mas dizemos amar. Algumas outras vezes, amamos sem desejar.

            Há, ainda, um outro aspecto ao qual esse poema me levou a pensar: como é difícil lidarmos com o amor! Estranhamente, se alguém diz que nos odeia, que nos quer matar, parecemos assimilar bem isso. Decerto, algo de ruim fizemos e a ira, o ódio é justificável. Mas como é complicado quando alguém diz que nos ama, não é? A primeira pergunta é “por que?”, seguida da inevitável “o que eu fiz pra essa pessoa me amar?”, que leva à conclusão “o que ele/ela está querendo com isso?”.

            Estranho mundo esse que nos criamos: aceitamos naturalmente que alguém nos odeie e pedimos toneladas de explicações quando alguém nos ama... Eu, hein?



Escrito por L'Archiviste às 23h43 [] [envie esta mensagem]





O taxista - ou, seriedade demais atrapalha

           Gente! Esse blog tava ficando muito sério. Santo Deus! Eu estava quase me levando a sério! Os posts anteriores, a seu modo, tinham endereço certo. Resolvi postar agora um episódio que ocorreu comigo em dezembro, na véspera de uma viagem a Vitória. Com vocês, minha saga num táxi pelas ruas do Rio

Noite de quarta, dia 15 de dezembro, meio atrasado pra ir pro Galeão, mas com a imensa perspectiva de ser feliz em Vitória por dois dias, resolvi perguntar pro taxista que abastecia no posto na esquina da minha rua se ele estava livre: "Hein? Hã? Ah!", foi a resposta. Achei só que ele era surdo, o que se confirmou à medida que ele ia dirigindo e (achava eu) falando sozinho. Só que, de vez em quando, ele virava pra mim e perguntava um "não é?". Quando eu concordava, ele dizia "Hein?". OK. Até aqui, depois do dia que eu tinha tido, ele tava até de bom tamanho. Pois bem: na reta do Aeroporto, aquele filho de sete putas simplesmente não viu (repito: NÃO VIU!!!!) e atropelou (repito: ATROPELOU) um cone de uma blitz da PM. Numa prova de que Deus existe e gosta de mim, o corno parou quando o PM apontou o fuzil. Pensei: "morri! e, claro, como habitante do Rio, muito mais 'patriótico' morrer de PM do que de Gol". Os PMs quase nos arrancaram pelo quebra-vento do carro. O PM berrava com ele: “tu é maluco?!?!?!”, e eu por trás concordava com a cabeça. “Tu quer morrer?!?!?!”, e eu confirmando. OK, consegui explicar pros gentis meganhas que eu era apenas um professor que iria encerrar um congresso em Vitória e assim eles só me fizeram esvaziar a mala toda e me revistar até a etiqueta da cueca. Pergunto: o que aquele kamikase do asfalto achou que aquela porra toda era? colaboração da PM pra enfeitar o Natal da Cidade, com cones, luzes coloridas e o cacete?!?!?! Ainda deu pra segurar o Boeing pelo rabo na pista, numa prova de que eu me lasco, mas não tanto assim. Portanto, você, incauto pelas ruas do Rio: evite o táxi do seu Antônio da Silva, o Mr. Magoo dos amarelinhos... Filho da puta!! Vai matar de susto a mãe dele! Corno!!

 



Escrito por L'Archiviste às 23h51 [] [envie esta mensagem]