A Academia e a tapioca
Sábado desses, pra ser mais preciso, dia 12 de fevereiro, tentando aliviar minha alma aflita das agruras impostas pelo dever acadêmico de produzir uma brilhante dissertação, assisti o Jornal Hoje. Aí, lá pelas tantas, disseram que iam ensinar receita de tapioca. Assisti e vi uma simpática mulata alagoana gorduchinha (desconfiem de cozinheiro(a)s magro(a)s) preparando a tapioca de uma forma que até uma criança de 6 anos, castigada pela fome, pela peste e pelo tsunami conseguiria fazer.
Aí, enchi-me de orgulho e auto-estima, lembrei-me que havia ganho um quilo de genuína tapioca nordestina e falei: “vou fazer esse troço”. Enquanto começava o ritual (sim, porque tudo na vida são rituais) de preparação, pensei: “Caraca! que coisa fácil! Vou fazer a tapioca e depois, enquanto como, volto às leituras fundamentais para a salvação do mundo e a mudança dos rumos da historiografia planetária.
Fiz. Melhor dizendo: tentei fazer. Ficou uma bosta absoluta!!!! Por muito menos já houve rebeliões no Carandiru ou no Cadeião de Pinheiros. Aí, segui a velha norma americana: “Quando tudo o mais falha, leia o manual” (ou, simplesmente, “RTFM” em linguagem militar – Read The Fucking Manual). Fui ao site e li a receita. Para minha surpresa, a tapioca tinha que ficar de molho por 24 horas (não, você não leu “2/4 horas”, não! 24 horas, mesmo! um dia inteiro!). Pô! Mas na reportagem a sorridente gorduchinha não falou nada disso. OK, perdido, perdido e meio. Deixei a tapioca de molho, seguindo o regulamento (i.e., a receita) à risca – se é pra seguir o manual, vamos lá, literalmente e no dia seguinte, passadas 24 horas (notem bem: nem 23:59, nem 24:01), fiz o que foi mandado: retirei o excesso de água, torci, espremi, peneirei, coloquei na frigideira e... bosta II, a missão! Incomível!!!!!!
Voltei ao meu século XVII e começo a achar que todo o saber histórico e científico não tem nenhum valor se não se consegue, com ele, fazer uma simples tapioca.
Escrito por L'Archiviste às 20h44
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Uma odisséia postal
Nesta semana, fui a uma agência dos Correios postar uma caixa para a Inglaterra. Tudo ia bem, eu já havia endereçado a caixa no estilo britânico de informar o código postal, e aí... aí a mocréia foi fazer o registro. Foi o seguinte o diálogo com a simpática atendente:
- O Sr. precisa colocar o CEP.
- Já está aí, senhorita.
- Onde????
- Esses dois conjuntos de letras e números são o código postal inglês.
- Ah! O Sr. vai me dizer que ISSO é o CEP?!
- Juro que sim, por Sua Majestade a Rainha e pela alma da Princesa Diana... Há décadas é assim, talvez séculos. Se você quer saber, o primeiro conjunto indica a região e o segundo, a sub-área...
- Tá! Mas o que eu faço? Aqui na máquina só aceita CEP de 5 números! E não pode ter letra!
- Moça, então eu acho que fudeu tudo! Já que eu não tenho poder de mudar o sistema de código postal inglês, vai complicar. E você está me dizendo que eu não poderia mandar nada pra Alemanha, Inglaterra, Holanda, países que usam letras nos CEPs...
- Peraí!!! Mas esse vai pra onde?
- Exatamente para onde está escrito aí na caixa: In-gla-ter-ra. A menos que o Correio faça a grande sacanagem de ir entregá-lo no Afeganistão. Aliás, eu nem sei se no Afeganistão eles usam CEP.
(Minutos de perplexidade e silêncio. Por dentro, eu me esborrachando de rir. Aí a menina vai lá dentro e deve ter consultado sei lá quem, talvez o presidente dos Correios, e volta feliz)
- Tá certo! Pode ir, sim.
- Ufa! Que alívio! Pensei que os Correios quisessem que eu fosse entregar pessoalmente.
(Minutos de angústia...)
- Não estou entendendo. O Sr. diz Inglaterra, mas aqui (na telinha) tá escrito Grã-Bretanha.
- Serve. Tá bom. Eles são amigos e vizinhos. Posta assim mesmo! (nessa altura, eu me dividia entre querer ter um acesso incontrolável de riso e voar por cima do balcão e passar a cabecinha oca da menina na máquina de franquear).
E quem disse que meus dias não começam animados?
Escrito por L'Archiviste às 20h43
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