O Milton
Ia eu hoje, do trabalho para o trabalho, quando tocou o celular. Não reconheci o número, mas ainda assim atendi. Não reconheci a voz, também, mas fui reconhecido: “É o João Henrique?”. “Sou. Quem fala?”. Era uma conhecida, com quem havia tempos eu não falava. Pediu-me desculpas, mas meu nome estava exatamente em cima do nome da pessoa com quem ela queria falar e, por engano, ela me ligou. Conversamos trivialidades e ela, subitamente, solta a pergunta: “E o Milton, hein?”. “O que aconteceu com o Miltinho, perguntei?”. Silêncio do outro lado... Melhor parar o carro. “João, ele desencarnou”.
E assim fiquei sabendo que meu querido amigo Milton Lando, arquiteto, designer e tradutor, havia morrido em maio, pouca coisa mais de um mês após havermos almoçado juntos e falado de planos para o futuro.E com as lágrimas vieram momentos compartilhados.
Conheci-o enquanto ele fazia a tradução de um livro, para o qual pediu minha ajuda, como se ele não conhecesse infinitamente mais da língua hebraica e da cultura judaica do que eu. Tradução esmerada, de ourives, de joalheiro lapidando uma gema preciosa. Tornamo-nos, a partir de então, “radanitas”, judeus iraquianos da Idade Média. Ficamos obcecados pelo assunto, acho que tentamos encontrar as ruínas da cidade de Radhan, aquela que talvez nunca tenha existido. Por causa dele e dos nossos radanitas, fui acabar tendo contato com Bernard Lewis, a maior autoridade em mundo árabe.
Miltinho, que após haver chamado um amigo nosso de “o babaca do Fulano”, fez com que essa pessoa tivesse o “babaca” anteposto ao nome, como um prenome, quase um vocativo. Miltinho, vítima dos meus inúmeros “bolos” e furos às nossas muitas reuniões e festinhas marcadas às quais eu quase nunca ia. Miltinho, sempre com um bom-humor e uma alegria enorme em se ver cercado de amigos. Alegria que parecia não caber em quem havia lutado na Guerra dos Seis Dias e vencido um câncer. Alegria que vencia seus momentos depressivos.
Enfim, fica aqui, com minhas lágrimas e meu carinho, a alegria, companheiro, de ter compartilhado este planeta e este tempo com você. E também a minha saudade. Uma saudade intraduzível em palavras, mas com a certeza de que você, pra usar a linguagem naval, está agora tendo somente bons ventos e mares tranqüilos. A você, Milton Lando (lembra de como rimos quando descobrimos que houve um Papa chamado Lando I?), arquiteto, designer, tradutor, fazedor do melhor homus bitahine que eu já comi, e, sobretudo, grande ser humano, o tributo da minha saudade.
Escrito por L'Archiviste às 15h42
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Gregório de Mattos - poeta ou profeta?
Definitivamente, Gregório de Mattos, mais do que poeta, parece ser profeta: ei-lo falando da Bahia do século XVII. Ou falaria da Brasília do século XXI?
DEFINE O POETA OS MAUS MODOS DE OBRAR NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA UNIVERSAL FOME QUE PADECIA A CIDADE.
Que falta nesta cidade? ... Verdade. Que mais por sua desonra? ... Honra. Falta mais que se lhe ponha? ... Vergonha.
O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Numa cidade, onde falta Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio. Quem causa tal perdição? ... Ambição. E o maior desta loucura? ... Usura.
Notável desaventura De um povo néscio e sandeu, Que não sabe que o perdeu Negócio, ambição, usura.
Quais são meus doces objetos? ... Pretos. Tem outros bens mais maciços? ... Mestiços. Quais destes lhe são mais gratos? ... Mulatos.
Dou ao Demo os insensatos, Dou ao demo o povo asnal, Que estima por cabedal Pretos, mestiços, mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos? ... Meirinhos. Quem faz as farinhas tardas? ... Guardas. Quem as tem nos aposentos? ... Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos, E a terra fica esfaimada, porque os vão atravessando Meirinhos, guardas, sargentos.
E que justiça a resguarda? ... Bastarda. É grátis distribuída? ... Vendida. Que tem, que a todos assusta? ... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça, Que anda a justiça na praça Bastarda, vendida, injusta.
Que vai pela clerezia? ... Simonia. E pelos membros da Igreja? ... Inveja. Cuidei, que mais se lhe punha? ... Unha.
Sazonada caramunha! Enfim, que na Santa Sé O que se pratica, é Simonia, inveja, unha.
E nos frades há manqueiras? ... Freiras. Em que ocupam os serões? ... Sermões. Não se ocupam em disputas? ... Putas.
Com palavras dissolutas Me concluo na verdade, Que as lidas todas de um frade São freiras, sermões, e putas.
O açúcar já se acabou? ... Baixou. E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu. Logo já convalesceu? ... Morreu.
À Bahia aconteceu O que a um doente acontece: Cai na cama, e o mal lhe cresce, Baixou, subiu, e morreu.
A Câmara não acode? ... Não pode. Pois não tem todo o poder? ... Não quer. É que o governo a convence? ... Não vence.
Quem haverá que tal pense, Que uma Câmara tão nobre Por ver-se mísera, e pobre Não pode, não quer, não vence!
(Gregório de Mattos e Guerra)
Escrito por L'Archiviste às 12h24
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Do século XVII ao XXI num poema
Para os que acham que o Século XVII não é senão um distante século perdido no tempo, um poema de Gregório de Matos e Guerra sobre a então cidade de Salvador. Ou falaria ele de Brasília, das malas, cuecas, mensalões e cafetinas do século XXI?
DEFINE A SUA CIDADE
De dois ff se compõe esta cidade a meu ver: um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito, e quem o recopilou com dous ff o explicou por estar feito, e bem feito: por bem digesto, e colheito só com dous ff o expõe, e assim quem os olhos põe no trato, que aqui se encerra, há de dizer que esta terra de dous ff se compõe.
Se de dous ff composta está a nossa Bahia, errada a ortografia, a grande dano está posta: eu quero fazer aposta e quero um tostão perder, que isso a há de perverter, se o furtar e o foder bem não são os ff que tem esta cidade ao meu ver.
Provo a conjetura já, prontamente como um brinco: Bahia tem letras cinco que são B-A-H-I-A: logo ninguém me dirá que dous ff chega a ter, pois nenhum contém sequer, salvo se em boa verdade são os ff da cidade um furtar, outro foder.
(Gregório de Mattos e Guerra)
Escrito por L'Archiviste às 12h21
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